top of page
  • Foto do escritorBruno Rizardi

Design Sistêmico: a nova fronteira da inovação para políticas públicas

Atualizado: 7 de mar. de 2023



Há algumas décadas, o Design vem se estabelecendo como uma disciplina transversal, afetando a forma como criamos produtos, serviços e organizações. No setor público, essa onda demorou um pouco para chegar, mas já é uma abordagem importante no arsenal do governo para melhorar as entregas nos serviços públicos.


...ao entender um sistema, dificilmente encontraremos um fator que será a bala-de-prata para mudar todo o sistema, sendo mais provável identificar diferentes frentes de atuação que, combinadas, efetivam mudanças de forma sistêmica.

Uma das grandes mudanças que vem do design é o foco nas necessidades do usuário, partindo de uma compreensão profunda dos comportamentos, expectativas e necessidades dessas pessoas, na busca de entregar soluções que considerem as diversas facetas do ser humano. Esse ponto de vista é especialmente poderoso no setor governamental, que muitas vezes não é capaz de se entender a realidade do cidadão e os problemas que enfrenta.


O movimento do design, encabeçado principalmente por unidades de inovação no governo, hoje é disseminado pelos diversos setores e órgãos. Enquanto os serviços públicos (digitais ou não) podem se beneficiar muito de abordagens tradicionais como o design thinking, design centrado no ser humano ou design de serviços, elas podem ser limitadas e insuficientes quando nos confrontamos com desafios complexos. Isso acontece porque esses problemas são sistêmicos, envolvendo múltiplos usuários, necessidades e relações pouco lineares, exigindo uma nova forma de trabalhar no setor público.


É nesse contexto que precisamos dar um passo além e trabalhar a partir do Design Sistêmico, uma camada do design que considera os usuários e suas relações complexas para criar uma solução que haja sobre diferentes necessidades.


Muitos experimentos e estudos estão acontecendo sobre essa forma de fazer design e em 2021 nós rodamos um experimento metodológico, explorando a intersecção entre design e pensamento sistêmico. Trabalhando ao lado do Gnova, laboratório de inovação da Escola Nacional de Administração Pública, criamos um piloto de metodologia de design sistêmico e o aplicamos a problemas complexos de três ministérios.




A metodologia que desenvolvemos partiu da premissa de que precisamos iniciar o processo entendendo a experiência humana, ou seja, nos perguntamos: como é a realidade das pessoas que vivenciam em um contexto de problema público?


Compreender as diferentes trajetórias humanas para compor um sistema social é como mapear as órbitas dos planetas para modelar o sistema solar: cada agente tem sua própria jornada, mas ela é influenciada pelos outros agentes que estão no sistema, resultando em relações complexas que se afetam mutuamente, em ciclos. Ao entender as trajetórias de cidadãos e suas famílias, agentes públicos e de organizações privadas, foi possível mapear um sistema, sem perder de vista a experiência das pessoas que o compõem.


Os sistemas que desenvolvemos eram compostos de subsistemas, ou seja, pequenas histórias que ajudam a explicar um contexto maior e mais complexo. Por exemplo, ao tentar entender os fatores que determinavam o Engajamento de Servidores, identificamos histórias menores que explicavam o burnout, a dificuldade em lidar com mudanças de gestão, o efeito dos incentivos financeiros e não-financeiros no trabalho e os fatores que levam à acomodação e saída do serviço público. Entender as trajetórias de diversos servidores públicos nos permitiu encontrar aquelas que se repetiam constantemente, permitindo explicar o complexo sistema do engajamento a partir da junção das histórias e eventos na trajetória dos servidores na administração pública.



Partindo desse olhar mais holístico, é possível perceber as relações sistêmicas e a conexão entre fatores que podem gerar resultados positivos ou negativos em um sistema. Por exemplo, no sistema de engajamento, foi possível perceber que a acomodação de servidores públicos é resultado de uma série de fatores que diminuem o engajamento e o propósito das pessoas no trabalho, sendo não uma causa, mas uma consequência do desengajamento. Apesar disso, muitas iniciativas em gestão de pessoas buscam trabalhar sobre a acomodação, quando na verdade seu foco deveria ser sobre os fatores que a antecedem.


A compreensão de um sistema permite desenhar soluções que atuam em diversos pontos, como se fossem “cutucões” que empurram o sistema para um estado desejável. Por exemplo, não é possível engajar servidores apenas oferecendo incentivos financeiros ao seu trabalho — essa estratégia é muito mais eficaz se estiver aliada ao reconhecimento profissional e atribuição de novas tarefas, criando um conjunto de ações que gera um sentimento de progressão e valorização do trabalho. Isso quer dizer que, ao entender um sistema, dificilmente encontraremos um fator que será a bala-de-prata para mudar todo o sistema, sendo mais provável identificar diferentes frentes de atuação que, combinadas, efetivam mudanças de forma sistêmica. Ao agrupar esse conjunto de ações sob um guarda-chuva, conseguimos então criar soluções de design sistêmico, uma vez que esse conjunto de ações será maior que a soma das ações individuais.


Trabalhar com design sistêmico significa entender que a complexidade não deve ser temida, mas abraçada. Nosso mundo é complexo e, ao simplificá-lo, perdemos o potencial de criar soluções que sejam capazes de trabalhar de forma sistêmica e holística. Mas, para isso, é importante sempre lembrar de começar a partir de experiências humanas que compõem o contexto e, assim, encontrar oportunidades para intervir para gerar transformações realmente significativas.

593 visualizações4 comentários

Posts recentes

Ver tudo

4 Comments


ROSA MARIA FEREIRA DE ARAÚJO
ROSA MARIA FEREIRA DE ARAÚJO
Dec 01, 2023

Ótimas reflexões!

Like

Cristiane Ribeiro Menezes
Cristiane Ribeiro Menezes
Nov 29, 2023

Momento de extrema importância para refletir nossa prática e sabermos como podemos contribuir.

Like

Marli Jesus
Marli Jesus
Oct 23, 2023

É isso que precisamos, tanto para os profissionais como para os nossos alunos, Desafio! Desafiar, apresentar, propor e permitir ir além do que se tem e do que se vê,. Assim vamos criando as possibilidades e as soluções para o sistema apresentado.

Like

Rosilda Aquino de sousa
Rosilda Aquino de sousa
Jul 10, 2023

Eu concordo com o que foi abordado até aqui , realmente não basta só gratificar o professor financeiramente sem se ter um propósito com foco na melhoria da educação e do próprio professor, é preciso que haja essa troca mútua de interesse para que a experiência seja até mais significativa.

Like
bottom of page